Friday, 12 August 2016

“A folha de Coca não é droga” Visita ao Museo de la Coca, Cusco, Peru

A folha de Coca não é droga”
Resgate dos saberes ancestrais como meio de descriminalizar a folha sagrada

O ato de Chacchar, coquear, mambear, pijchar, etc, transcende o mero mastigar coca por matar a sede, fome ou cansaço; é um ato ritual com profundas conotações sociais, já que perpetua as tradições culturais e une as pessoas.” - Museo de la Coca, Cusco, Peru.

Visita ao Museo de la Coca, Cusco, Cusco, Peru

Depois de mais de duas horas buscando, dando voltas e voltas pelo bairro San Blas, com diversas informações divergentes sobre a localização do museu (incluindo algumas que diziam que ele já não existia mais), finalmente encontramos o MUSEO DE LA COCA, na Plaza San Blas, 618.
Um pouco escondido, no segundo andar de um pequeno prédio, está o Museo da Coca, que conta um pouco da história da folha sagrada dos Incas, desde seu uso tradicional até sua utilização e comercialização como narcótico. Aí também se podem encontrar informações sobre os usos medicinais e a informação nutricional das folhas de coca e diversos artigos feitos à partir das folhas ou do extrato e da farinha das folhas.
A entrada custa s./ 5 para estudantes e s./ 10 para não-estudantes e os posteres explicativos estãoem inglês e espanhol e a visita pode ser guiada por uma atendente que fala essas duas línguas e o Quechua norteño.

Um pouco sobre a história da civilização Inca e a Coca, de acordo com o Museo de la Coca

Denominação comum às plantas da família Erythroxylaceae, originária da América do Sul, encontrada em maior densidade nas áreas que hoje formam Bolívia, Peru, Colômbia e Venezuela, se refere à mais de 450 espécies de arbustos cuja altura pode variar de 1,5 a 6m

5.000 a.C. - Indígenas nomades utilizavam Coca e Cal
4.000 a.C. - Na cultura de Caral se encontram vestígios de Coca.
600 – 360 a.C. - Nas culturas pré-incas Nazca e Mochica, se registra o uso de Coca em cerimônias e Chuspas.
1200 – 1475 – Os incas utilizavam azeite de coca para cirurgias de tumores cerebrais.
1573 – Nas minas de Potosí se consumia coca equivalente a 450kg de ouro por ano.
1601 – Garcilazo de la Vega em los “Comentários reales” escreve um capítulo “La Coca y el Tabaco”
1786 – A coca é registrada na Enciclopedia Botanica de Lanmark na família das eritroxilaceae, no gênero erythroxylum
1859 – O alemão Albert Niemann isola um alcaloide da Coca e o chama de “cocaína”
1863 – Se produz, na França, o primeiro vinho de coca
1884 – Sigmund Freud publica “Sobre a Coca”.
– John Pemberton, nos EUA começa a produção de coca-cola
- Karl Koller usa a cocaína como anestésico
- Começa, na frança, a produção de cocaína
1901 – Mortimer, nos EUA, publica sua obra monumental: “Historia de la coca”
1976 – A Universidade de Harvard publica o primeiro estudo nutricional da coca
2009 – Se inaugura o primeiro museu da Coca, no Peru.

Leitura da Coca

Método profético de origem pré-inca que até hoje se pratica por indivíduos que herdam o dom de algum parente próximo e, ao se colocarem num estado de consciência mais elevado, invocam o espírito da coca para que lhes dê clareza acerca de uma determinada questão, baseando-se, para a interpretação, nas características e localização das folhas.
Na filosofia andina, a Coca foi presenteada aos povos para guiar e curar e, com a junção do natural com o espiritual, se pode utiliza-la para saber de questões acerca da vida.


Trepanações cranianas

Na civilização Inca se praticavam as trepanações com os propósitos de eliminar fragmentos de ossos e armas que ficavam no crânio após acidentes bélicos; de aliviar dores de cabeça, infecções, demencia, convulsões e para extrair coágulos. Para a cirurgia, se utilizavam emplastros de coca como anestésico local e antiinflamatório e os instrumentos utilizados eram de bronze e obsidiana. Para que a ferida sarasse, eram conchas marinhas ou placas de prata ou bronze.
Comprovou-se uma grande porcentagem de casos exitosos de pacientes que viveram por muitos anos depois destes tipos de cirurgias, o que evidencia o amplo conhecimento de anatomia que tinham esses cirurgiões.

Alterações nas formas cranianas

Prática que consistia no amarre de pequenas tábuas no crânio (ainda em formação) das crianças como indicador de que a pessoa pertencia à nobreza ou por algum fim religioso. Antes, porém, de se amarrarem as tábuas, colocava-se no local uma pasta feita à base de coca e outras plantas, utilizada como analgésico.


Glossário de termos tradicionais no uso da Coca


Calero: Pequeno porongo onde se guarda a cal viva, que contém uma agulha ou osso para retirar a cal e colocá-la no “bolo” de coca.

Chacchar: Fazer um bolo de folhas de coca na lateral da boca, entre os dentes e a bochecha, deixá-las que se umedeçam e ir extraindo o suco através de um mastigar suave. Para que se obtenha o máximo de benefício desse ato, é necessário que se agregue uma substância alcalina, como cal vivo, cinza (chamada “Llipta”, normalmente uma mescla de chaco, uma argila encontrada na região de Puno-PE e na Bolívia, cinza de estévia e de quinoa ou banana), ou apenas bicarbonato de sódio. Depois de 40 minutos a uma hora, ou quando já não se sente o sabor original, se retira o "bolo" e o devolve para a terra.

Checo: Ver Calero.

Chuspas: Pequenas bolsas de tecido onde se levam as folhas de coca.

Llipta: Substância alcalina preparada com a cinza dos talos de plantas próprias a cada zona e se utiliza com a coca para que se extraia o máximo de nutrientes da coca.

Poporo: Ver Calero

Pucucho: Bolsas de couro para transportar as folhas que conservam muito mais suas propriedades.

Unkuñas: Pequenos panos utilizados para levar coca em cerimônias religiosas e eventos sociais.

Valor Nutricional das folhas de Coca*

Em 200ml de leite integral, temos disponível 250mg de Cálcio, do qual será absorvido pelo corpo apenas 30%¹. Em 100g de folhas de Coca, temos quase 8,5x mais cálcio, sendo que a quantidade de cálcio recomendada para uma pessoa na faixa dos 30 anos seria de 1000mg e por isso se estuda o uso das folhas de coca mascadas e em forma de chá e suplemento alimentar para reduzir a osteoporose e melhorar a saúde dental.

*Variam de acordo com a espécie, local e modo de plantio.


¹De acordo com BUZINARO, ALMEIDA, MAZETO, em “Disponibilidade do Cálcio Dietético” disponível em <http://www.scielo.br/pdf/abem/v50n5/32222.pdf> Acesso em 11/08/2016.

Finalizando a visita

O museu se divide em 5 pequenos espaços, tendo o último sido deixado para o (mau) uso atual da coca sagrada das civilizações Inca e pré-inca, onde se expõe sobre os riscos do uso da cocaína e apresenta-se um quadro que indica que são necessários 30 kg ou mais de folhas de coca para se produzir menos de 100g de cocaína, que contém em sua composição alguns elementos como amoníaco (presente em produtos de limpeza) e o ácido sulfúrico (presente em pilhas) e também para apresentar pessoas da atualidade que utilizam e defendem a Coca como elemento cultural central das culturas andino-amazônicas.

Na saída do Museu fica uma loja de artesanatos e produtos feitos à partir da folha de coca, como um chamado à que se volte a utilizar no dia-a-dia essa folha sagrada na sua forma natural, pois a planta não é a droga e, por isso, não deveria ser ou não legalizada/proibida nos países ao redor do mundo.
 Figura 9: Artesanato, vinho, sabão e cerveja de coca.




Figura 10: Gracias por su visita! ;)


P.S.: Ficamos tão amigos da guia nessas duas visitas ao museu que, ao final da visita, ela nos regaló (presenteou) um pacote de toffees de Coca hahahaha.


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