Wednesday, 21 September 2016

"Jallalla Pachamama!", Celebração do Equinócio de Primavera & Festa da Lua

Imagem 1: Caminhada até a Waka Pachacamaq
Quatro das cinco datas mais importantes para os incas, nas quais se faziam grandes celebrações, eram os solstícios e equinócios.
 Durante os dias 20 e 21 de setembro (equinócio de primavera, época em que se celebra o Killa Raymi, a Lua, o Mar - que, para os Incas, era uma força feminina - e as mulheres, em geral), estivemos em YanaWillaq, lugar onde estava localizada uma Ayllu (comunidade) Incaica homônima (cujo nome se traduziria a algo como "os mensajeiros do criador do mundo", já que, Pachacamac, do Quechua, significa "o criador/organizador do mundo" ou, "aquele que anima o mundo"), da qual saiam nas datas festivas, pecorrendo o trecho Xauxa-Pachacamaq do Qhapaq Ñam ("Caminho dos Justos", uma linha de 45º, podendo ser traçada através da Chakana, que conectava as principais cidades Incas, estando Cusco no centro desta linha), dançando e entregando oferendas ao Oráculo de Pachacamaq, localizado na Waka ("centro de poder", erronea e catolicamente traduzido como "santuário") Pachacamac agradecendo pelas dádivas recebidas, firmando compromisso com seu próprio desenvolvimento e pedindo esclarecimentos e bendições.

 Imagem 2: Manuel soprando seu K'intu¹
  Imagem 3: Guardião do fogo
 Imagem 4: Gilberto entregando seu K'intu para ser ofertado ao Fogo

 Na noite do dia 20, fizemos uma fogueira à beira-mar, conversamos sobre a cultura e a ritualística das épocas incaicas e pré-incaicas, a importância da Folha de Coca como ritual, medicina, alimento e cultura viva de diversos povos sulamericanos, distribuídos no tempo durante mais de 8 mil anos e geograficamente por Colômbia, Equador, Venezuela, Peru, Bolívia, Brasil e Argentina. Nos demos conta da importância que cada um tem mantendo viva dentro de si (e acendendo em outros) a chama dos antepassados, para que não seja esquecida toda uma cultura de amor à natureza e de equilíbrio entre todas as formas de vida.
Imagem 5: Manuel ofertando Coca ao fogo; Imagem 6: Oferenda sendo entregue ao "Taita Nana".
Na manhã do dia 21 seguiu-se uma caminhada animada, com cerca de 17 pessoas, ao som de maracas, pututus, tambores, acompanhados por Jorge e Jeni, amigos queridos e operadores de Turismo pela Yanawillaq Tour and Beach S.A.C., e por Manuel Seminário, peruano e peregrino defensor da liberdade para a folha de Coca, por ser parte da cultura viva de seu país (cujo uso ininterrupto remonta mais de 8 mil anos), alimento, medicina e também parte da ritualística de diversos povos sulamericanos. "Ter a folha de coca em uma lista de estupefacientes [junto com o cloridrato de cocaína e heroína] é uma ofensa à nossa cultura, aos nossos antepassados", afirma.
Imagem 7: Vista do mirador da Waka Pachacamaq
Chegamos à Waka Pachacamac e lá realizamos uma cerimônia de "Ofrenda a la Tierra", que, brevemente, consiste em uma oferenda (folhas de coca, grãos e cereais, etc) agradecendo a abundância recebida na forma de comida, saúde, dinheiro, etc, que a Mãe Terra (Pachamama) deu, fazendo pedidos para abundância no próximo ciclo e firmando compromisso com nosso próprio desenvolvimento (o que vamos fazer para que possamos ser melhores? para que possamos ser dignos de receber aquilo que pedimos?) e também, é claro, agradecendo às forças femininas da Lua, Mar, e às próprias mulheres por seus papéis nos ciclos da Vida.
À noite, um ritual semelhante tomará lugar em Kuka Hampy Wasi, em Lima e, em breve, teremos mais fotos e explicações para os interessados na cultura andina!
Imagem 8 e 9: duas partes das ruínas da Waka Pachacamaq; a segunda sendo a Acllahuasi²

Imagem 10: "Jallalla³ Pachamama! Gracias, herman@s!"
¹K'intu: grupo de três (ou quatro) folhas de coca, que representam os três mundos (ou quatro), os três tempos ou os quatro elementos, que, nos pagos/ofrendas a la tierra, ao serem ofertados ao fogo (depois de serem soprados com os agradecimentos/pedidos silenciosos de quem o porta), levam, em forma de fumaça, essas afirmações para os quatro cantos do universo, para todos os tempos e mundos, para que se realizem.
² Acllahuasi: "Casa das Escolhidas", do Quechua. Casas para onde eram levadas as mulheres virgens que eram escolhidas por seus dons para serem serviçais às ordens do Inca, sendo encarregadas da produção de Chicha e têxtiles, outras eram escolhidas como esposas para o Inca ou seus guerreiros e nobres, etc.
³ "Jallalla": palavra quechua-aymara que une os conceitos de esperança, festejo e bem-aventurança, expressando, neste único termo, a ideia que nossos sonhos devem sempre ir acompanhados do forte desejo de sua concretização, elevando nosso pedido a Deus, Pachamama, Universo, etc, e trabalhando intensamente para alcança-lo.
Taita Nana: um dos quatro elementos. A expressão vem do Quechua e significa "Pai Fogo".

Saiba mais sobre
Coca Móvil e sua peregrinação por Abya Yala para "mostrar a 'outra cara' da folha de Coca" - página facebook
Turismo Yanawillaq - blog
Turismo Yanawillaq - pág Facebook
TRANSNATIONAL INSTITUTE. Coca si, Cocaína no: opciones legales para la hoja de Coca. Amsterdam. Maio, 2006. 20p.

Fotos: Raíces de la Tierra. Lima - Peru, 2016.

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