Friday, 9 September 2016

Un emoliente, por favor!

Imagem 1: Em Abancay: "Un emoliente, por favor!"
Se estiver no Peru e estiver buscando um elixir revitalizante, que contenha uma infinidade incrível de cores, sabores e aromas, que te esquente o corpo, e que, além de tudo isso, ainda seja extremamente medicinal, procure um carrinho que venda emolientes!
Das 6 às 9 da manhã, e das 7 às 10 da noite, nas ruas das cidades da Costa, Serra e Selva do Peru, pode-se encontrar uma porção de carrinhos cheios de chás, garrafinhas coloridas, panelas e/ou chaleiras ferventes onde se pode comprar uma bebida calientita típica, à base de ervas medicinais e cevada tostada, engrossada com Linhaça e Chia (podendo também conter Babosa), nas opções morno (“tíbio”) ou quente (“caliente”), sendo que, normalmente, muitas variações são encontradas dependendo da parte do Peru em que se esteja, já que se procuram utilizar ervas da região.
 Imagem 2: Emoliente com Ayrampo pra espantar o frio de Pisac.
Por exemplo, em Cusco e outras cidades da “Sierra” é comum encontrar uma garrafa com um líquido cor-de-rosa (que, à primeira vista pode parecer bastante artificial), proveniente da infusão das sementes de Ayrampo (um cactos desta região, sobre o qual falamos aqui), que vem sendo utilizado medicinalmente desde épocas pré-incaicas como febrífugo e anti-inflamatório e também como um corante natural para lãs e comidas; Na Selva encontram-se frasquinhos de azeite de copaíba (imunoestimulante, cicatrizante interno e externo, sobre o qual falamos aqui) e sangre de grado (cicatrizante interno e externo, muito utilizado em casos de úlceras e tumores, anemia e diarreia).
Pode-se simplesmente ir à um/uma emolientero/a e pedir “un emoliente”, o que te dará um emoliente padrão, geralmente adoçado com açúcar mascavo e com bastante limão, geralmente recém-espremido, ou pode-se especificar para quem o está preparando que mal-estar ou enfermidade te aflige. Por exemplo, se uma pessoa sente que seu fígado está mal, por ter muitos arrotos ou não poder digerir bem os alimentos que consume, vai pedir algo “para el hígado” e assim, antes do Emoliente (ou até misturado, dependendo do modo de preparo), vai receber um trago de alguma erva amarga, tônica para o fígado, como é o caso do Hercampuri (falamos sobre ele aqui) e um emoliente com menos ou simplesmente nada de açúcar; Se está gripada, com a garganta inflamada, seu emoliente será adoçado com mel de abelha e pode conter uma ou duas gotas de azeite de copaíba e por aí vai... A reputação dessa bebida por todo o Peru é tão grande que é comum ver junções de pessoas em torno dos carrinhos, todos esperando ansiosamente pelo seu emoliente, enquanto observam com olhos atentos a destreza do emolientero.
Muitas pessoas realmente acreditam no poder curativo do Emoliente e testemunham que seu consumo regular é benéfico nos casos de gastrites e problemas estomacais, gripes, resfriados, inflamações diversas, incluindo artrite, artrose, reumatismo, prostatite, assim como nos casos de imunidade baixa, úlceras e tumores, irregularidades menstruais e ovários policísticos, retenção de líquidos e dores nos rins, dentre outros males.
Imagem 3: Sílvia preparando-nos um emoliente
A razão para que uma só bebida possa auxiliar a tratar tantas moléstias diferentes se deve ao fato de que em sua composição entram diversas plantas com ricas propriedades nutricionais e medicinais, como Cevada, Linhaça (“linaza”), Chia, Ayrampo, Limão, Alfafa, Boldo, Unha/Uña de Gato, Tansagem (“llantén”), Cavalinha (“colla de Cavallo”), Babosa (“sábila”), Chacco (argila branca proveniente da Bolívia ou de Puno - Peru), Folha de Urucum (“Achiote”), Penca de Tuna (um cactos, cuja “baba” da folha, extraída ao deixa-la de molho em água, é recomendada em casos de diabetes e colesterol altos), Flor Blanca (Ovários), Chuchuhuasi (Bronquios, artrite, artrose), matico, camomila (“manzanilla”), Agracejo, Diente de Leon, Hercampuri, Eucalipto, Mel de Abelha (“Miel de abeja”), Estévia, Açúcar mascavo, Algarrobina, Pólen. Ufa! E, ao mesmo tempo em que se aprecia uma bebida saudável e saborosa, também se pode receber informação sobre a história do emoliente, da experiência del emolientero e, é claro, sobre os benefícios das plantas medicinais que compõem a mistura.

Um pouco da História do Emoliente²

Havia uma bebida cerimonial da Grécia preparada com água, cevada e menta, chamada Cicéon, que acabou se tornando popular na Espanha (onde acrescentaram canela e limão à mistura) e, quando os espanhois chegaram à região que hoje seria a costa peruana, a bebida acabou se tornando muito popular e, na época colonial, surgiram pequenos estabelecimentos dedicados à preparação do emoliente

Imagem 4: detalhes das garrafas com extratos de plantas medicinais e
das laterais dos carrinhos, com chás em bolsinhas para vender.



Durante nossa estada em Abancay, uma pequena e aconchegante cidade no estado de Cusco, que milagrosamente não está tomada por turistas (nem por pessoas que vivem deles, diga-se de passagem), tivemos a oportunidade de experimentar diferentes emolientes e de conversar con los emolienteros, claro. Em Abancay, muitos dos carrinhos de emolientes tem um teto simpático com uma indicação de nome ou do nome de quem atende e algumas bolsinhas com chás para vender.
Ao longo da Avenida Arenas, nos afeiçoamos a dos emolienteros muy amables, un hombre y la otra, una mujer, com os quais tomávamos nossos emolientes diários.
Com o senhor, cujo carrinho leva o título ‘Hierbas medicinales “Abancay”’, ficamos sabendo que a folha da Tuna, ao ser deixada de molho solta uma gosma que, ao ser tomada, é muito boa para tratar diabetes; e que a babosa, se for consumida com uma certa frequência, para que seja ainda mais benéfica para a saúde, deve ser deixada de molho cerca de 4 horas antes de seu uso (o melhor seria durante toda uma noite) para que o iodo que ela contém saia.
Imagem 5: Organização do carrinho
Com a senhora, Sílvia, do carrinho ‘Hierbas medicinales “Sílvia”’, aprendemos um pouco sobre como preparar um emoliente, e aqui vai uma mistura de sua receita com a nossa, que rende 4 copos de 300ml:
- Em um recipiente, colocar para hidratar 3 colheres de chia em 6 colheres de água morna;
- Ferver em uma panela tapada, 400 ml de água com 100 gramas linhaça, 100g de cevada tostada e as plantas medicinais que estiverem em casca ou semente por 7 minutos (um pouco da água evaporará e ficará uma gosma espessa);
- Ferver, em outra panela tapada, por 1 a 2 minutos as demais ervas que se queira utilizar e deixar descansar por 5 minutos, numa proporção de 30g de ervas secas por litro de água (ou o quanto desejar);
- Num recipiente (os emolienteros utilizam um copo e uma xícara), colocar o gel do interior de um pedaço de 3cm de babosa (que preferencialmente tenha sido deixada de molho anteriormente), mel de abelha (ou o adoçante que desejar; é opcional) e o quanto queira de ervas e espessantes (não esqueça de coá-los!) e suco de limão recém espremido;
- Passar de um recipiente à outro para que se esfrie um pouco e para que se misturem bem os ingredientes.
- Apreciar!

Imagem 6: "Gracias, jóvenes! Hasta mañana!"



Hoje em dia, principalmente na cidade de Lima, o emoliente também pode ser encontrado frio, engarrafado "para levar" e até como figura principal de alguns estabelecimentos tipo "cafés", cheio de pompa e requinte... Ainda assim, o "original" continua sendo esse que se vende nas carrocinhas da rua, com suas chaleiras ferventes e um limão exprimido até a úuultima gotinha, a s./ 1 (equivalente a R$ 1) o copo de 350 ml (com un aumentito que quase chega a ser um copo extra, dependendo da conexão momentânea que haja entre o consumidor e o emolientero)


P.S.: Ao longo do mês atualizaremos o blog e a página do facebook sobre nossas pesquisas acerca das diversas ervas que compõem o emoliente. Não percam! ;) Aqui nesta postagem já estão assinalados com seus respectivos links as plantas sobre as quais já falamos.

 Referências
Entrevistas aos emolienteros na cidade de Abancay (enquanto apreciávamos seus riquíssimos emolientes);
²http://elcomercio.pe/gastronomia/peruana/historia-emoliente-bebida-esquina-noticia-760465
Imagens: Arquivo pessoal, Peru, 2016.


No comments:

Post a Comment